Se você convive com o diabetes e recebeu o diagnóstico de catarata, é natural ter dúvidas: a cirurgia é segura? O que precisa ser feito antes de operar? Neste artigo, o Dr. Vitor Torturella, oftalmologista especialista em cirurgia de catarata no Rio de Janeiro, explica a relação entre as duas condições e os cuidados que fazem diferença no resultado.
Resumo rápido: o diabetes acelera o aparecimento e a progressão da catarata, mas não impede a cirurgia. Com a glicemia controlada, uma avaliação pré-operatória específica — que inclui mapeamento de retina, OCT de mácula e biometria — e um acompanhamento pós-operatório mais próximo, a cirurgia de catarata pode ser realizada com segurança no paciente diabético bem avaliado.
Por que o Diabetes Acelera a Catarata?
O cristalino — a lente natural do olho — é transparente porque suas proteínas são organizadas de forma extremamente precisa. O excesso de glicose no sangue altera o metabolismo dessas proteínas, gerando estresse osmótico e oxidativo dentro do cristalino. O resultado: no diabético, a catarata tende a surgir anos mais cedo e a progredir mais rapidamente do que na população em geral.
Há ainda um sinal clássico: as flutuações da glicemia mudam temporariamente o grau dos óculos. Quando a visão “melhora e piora” acompanhando o controle do diabetes, é hora de procurar o oftalmologista.
Os tipos de catarata mais associados ao diabetes
- Catarata cortical: opacidades em forma de raios que avançam da periferia para o centro do cristalino. Causa sensibilidade ao brilho (glare) e dificuldade com contrastes — incômodo típico ao dirigir à noite.
- Catarata subcapsular posterior: opacidade na parte de trás do cristalino, bem na trajetória da luz. É a mais traiçoeira: mesmo pequena, compromete muito a visão de perto e em ambientes claros.
- Catarata nuclear: a forma clássica do envelhecimento, que no diabético costuma aparecer mais cedo.
Por que o Controle Glicêmico Antes da Cirurgia Importa
A cirurgia de catarata é eletiva — e isso é uma vantagem: há tempo para preparar o organismo. O controle da glicemia antes do procedimento influencia diretamente quatro pontos:
- Cicatrização: a hiperglicemia compromete a cicatrização dos tecidos, inclusive os oculares. Um olho que cicatriza bem se recupera com mais tranquilidade.
- Risco de infecção: o descontrole glicêmico favorece infecções. A infecção intraocular após a cirurgia é rara, mas tudo o que reduz ainda mais esse risco deve ser feito.
- Edema macular: o diabético tem maior propensão ao inchaço da mácula (o centro da retina) após a cirurgia. O bom controle glicêmico, somado à profilaxia com colírios, ajuda a reduzir essa chance.
- Medidas confiáveis: como a glicemia alterada muda temporariamente o grau do olho, medir o olho com a glicemia estável protege a precisão do cálculo da lente.
Importante: não se trata de exigir uma “glicemia perfeita”, e sim estabilidade. Esse preparo é feito em conjunto com o médico que acompanha o seu diabetes, clínico ou endocrinologista.
Avaliação Pré-Operatória: O que Muda para o Diabético
Além dos exames pré-operatórios de rotina, três pontos merecem atenção especial no paciente com diabetes:
Mapeamento de retina: procurar a retinopatia diabética
O diabetes pode afetar os vasos da retina — é a retinopatia diabética, silenciosa nas fases iniciais. Antes de operar a catarata, o exame de fundo de olho completo identifica se há retinopatia e em que grau. Esse achado muda o planejamento: a retina precisa estar avaliada (e, quando necessário, tratada) antes da cirurgia.
OCT de mácula: descartar o edema macular diabético
A OCT (tomografia de coerência óptica) cria imagens detalhadas das camadas da retina e detecta alterações sutis que o exame convencional pode não mostrar — em especial o edema macular diabético, uma das principais causas de baixa visão no diabético. Não faz sentido implantar uma boa lente se a mácula não está pronta para aproveitá-la: havendo edema, ele deve ser tratado antes.
Biometria e a escolha da lente intraocular
A biometria óptica mede o olho com alta precisão e define a potência da lente a ser implantada. No diabético, deve ser feita com a glicemia estável. A escolha do tipo de lente também é influenciada pela retina: lentes multifocais exigem mácula saudável — quando há retinopatia ou alteração macular, opções mais conservadoras tendem a ser mais indicadas. A avaliação individualizada define a melhor estratégia para cada olho.
Cuidados no Intra e Pós-Operatório
A técnica é a mesma da população geral: facoemulsificação, com incisão de cerca de 2 mm, anestesia com colírios e alta no mesmo dia. No diabético, alguns cuidados são reforçados:
- Durante a cirurgia: a pupila do diabético pode dilatar menos, o que exige atenção e, às vezes, recursos específicos. O cirurgião busca minimizar a energia e a manipulação dentro do olho.
- Profilaxia do edema macular: os colírios anti-inflamatórios podem ser mantidos por mais tempo, conforme critério médico, para proteger a mácula.
- Acompanhamento mais próximo: os retornos são mais frequentes, e a OCT de controle pode ser repetida nas primeiras semanas, conforme cada caso.
Sinais de alerta após a cirurgia
- 🚨 Piora da visão central após uma melhora inicial — pode indicar edema macular
- 🚨 Dor intensa e progressiva, vermelhidão importante ou queda de visão nos primeiros dias — possível infecção, uma emergência
- 🚨 Flashes de luz, aumento súbito de “moscas volantes” ou sombra no campo de visão
- 🚨 Linhas retas que parecem tortas ou onduladas — típico de alteração macular
Na presença de qualquer um desses sinais, o paciente deve contatar o médico imediatamente — não esperar a consulta de retorno agendada.
A Cirurgia é Segura para Quem Tem Diabetes?
Sim — o diabetes não é contraindicação para a cirurgia de catarata. Ele é um fator que exige preparo: glicemia estável, retina avaliada (e tratada, quando necessário) e acompanhamento pós-operatório mais próximo. Seguido esse caminho, a cirurgia transcorre com os mesmos passos e a mesma tranquilidade da população geral.
O que compromete o resultado não é o diabetes em si — é operar sem a avaliação e o preparo adequados. A mensagem, portanto, é de confiança com responsabilidade: o paciente diabético bem avaliado e bem controlado tem todas as condições de se beneficiar da cirurgia.
Retinopatia Diabética: Tratar Antes ou Junto — Nunca Ignorar
Quando a retinopatia diabética está presente, ela deve ser estabilizada antes da cirurgia ou tratada de forma coordenada com ela. Operar um olho com retinopatia ativa e não tratada aumenta o risco de progressão das lesões e de edema macular no pós-operatório.
Há também o caminho inverso: às vezes a catarata está tão densa que impede o médico de enxergar e tratar a retina. Nesses casos, a cirurgia cumpre um papel duplo — devolve visão e abre caminho para o tratamento da retinopatia (laser ou injeções intraoculares, conforme a indicação). A sequência ideal é definida caso a caso, com o especialista em retina quando necessário.
Perguntas Frequentes
Quem tem diabetes pode operar a catarata?
Pode. O diabetes exige uma avaliação pré-operatória específica — mapeamento de retina, OCT de mácula e biometria com glicemia estável — e acompanhamento mais próximo, mas não impede a cirurgia. A maioria dos diabéticos é candidata ao procedimento após o preparo adequado.
Preciso “zerar” a glicemia para poder operar?
Não. O objetivo é estabilidade, não perfeição. Como a cirurgia é eletiva, há tempo para ajustar o controle do diabetes junto ao seu clínico ou endocrinologista antes do procedimento — o que protege a cicatrização e favorece medidas mais precisas para o cálculo da lente.
Diabético pode escolher lente multifocal (premium)?
Depende da saúde da retina. Lentes multifocais exigem mácula saudável para funcionar bem. Havendo retinopatia significativa ou edema macular, opções mais conservadoras tendem a oferecer um resultado mais confortável e previsível. Os exames pré-operatórios — em especial a OCT de mácula — definem, com segurança, quais lentes são adequadas para o seu olho.
A catarata pode voltar por causa do diabetes?
A catarata verdadeira não volta: o cristalino opaco é removido e substituído por uma lente artificial, que não opacifica com a glicemia. O que pode ocorrer, em qualquer paciente, é a opacificação da cápsula posterior (“catarata secundária”), tratada com laser em consultório. O que o diabetes exige, sim, é a continuidade do acompanhamento da retina pelo resto da vida — a cirurgia de catarata não substitui esse cuidado.
Se você tem diabetes e percebe visão embaçada, sensibilidade ao brilho ou dificuldade crescente para ler e dirigir, não adie a avaliação: quanto mais cedo a catarata e a retina são examinadas, mais simples é o planejamento. Agende sua consulta pelo WhatsApp ou Doctoralia.
Dr. Vitor Torturella — Oftalmologista
Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Não substitui a avaliação médica individualizada.




