Os colírios para glaucoma são a base do tratamento na maioria dos casos. Eles funcionam de duas maneiras: ou reduzem a produção de líquido dentro do olho, ou facilitam a drenagem desse líquido. O objetivo é um só — baixar a pressão intraocular para proteger o nervo óptico. Existem várias classes de colírios, cada uma com mecanismo de ação, horário de uso e efeitos colaterais diferentes. Neste artigo, explicamos os tipos principais de forma simples.
Dr. Vitor Torturella — Especialista em Glaucoma | CRM-RJ 901849 | RQE 31033
Como funcionam os colírios para glaucoma?
Para entender, lembre da analogia da pia: o olho produz um líquido (humor aquoso) que precisa escoar por um “ralo”. Se a pressão está alta, ou a torneira está forte demais (produção excessiva) ou o ralo está lento (drenagem insuficiente). Os colírios podem fechar um pouco a torneira, abrir mais o ralo — ou as duas coisas.
Tipos de colírios para glaucoma
Análogos de prostaglandina
São a primeira escolha na maioria dos casos. Funcionam “abrindo o ralo” — facilitam a saída do líquido por uma via alternativa (via úveo-escleral). Exemplos: latanoprosta, travoprosta, bimatoprosta, tafluprosta.
Vantagens: Usados uma vez ao dia (à noite), o que facilita a adesão. Boa potência — reduzem a pressão em 25 a 35%.
Efeitos colaterais: Podem escurecer a íris ao longo do tempo (mais visível em olhos claros), aumentar o comprimento e escurecer os cílios, e causar vermelhidão leve. Os efeitos cosméticos são mais relevantes em quem usa apenas em um olho.
Betabloqueadores
Funcionam “fechando a torneira” — reduzem a produção de humor aquoso. O mais conhecido é o timolol. Usados geralmente duas vezes ao dia.
Vantagens: Potentes, baratos e disponíveis há décadas.
Efeitos colaterais: Podem causar efeitos sistêmicos — falta de ar em asmáticos, redução da frequência cardíaca, cansaço. Por isso são contraindicados em pacientes com asma grave, DPOC ou bradicardia. Importante: mesmo sendo colírio, o medicamento pode ser absorvido pela mucosa nasal e cair na corrente sanguínea.
Inibidores da anidrase carbônica
Também “fecham a torneira”. Disponíveis em colírio (dorzolamida, brinzolamida) ou comprimido (acetazolamida). Os colírios são usados 2 a 3 vezes ao dia.
Efeitos colaterais do colírio: Ardência ao pingar, gosto amargo na boca, olho vermelho leve.
Efeitos do comprimido: Formigamento nas mãos e pés, cansaço, alterações no paladar. O comprimido é usado geralmente em situações agudas ou quando os colírios não bastam.
Alfa-agonistas
Funcionam dos dois jeitos — reduzem a produção e facilitam a drenagem. O mais usado é a brimonidina. Usada 2 a 3 vezes ao dia.
Efeitos colaterais: Vermelhidão, ardência, boca seca, sonolência leve. Em crianças pequenas podem causar sonolência excessiva — por isso evitados em menores de 2 anos.
Colírios combinados
Quando um colírio sozinho não é suficiente, o médico pode combinar duas classes em um frasco só. Exemplos: timolol + dorzolamida, timolol + brimonidina, timolol + latanoprosta. A combinação reduz o número de frascos e pingadas por dia, facilitando a rotina.
Inibidores de ROCK (nova geração)
Classe mais recente. Funcionam “abrindo o ralo principal” — relaxam a malha trabecular, que é a via natural de drenagem do olho. Exemplo: netarsudil. Ainda não estão amplamente disponíveis no Brasil, mas representam uma nova fronteira no tratamento.
Como pingar o colírio corretamente
Parece simples, mas muita gente pinga errado — e colírio que não entra no olho não faz efeito. O jeito certo:
- Lave as mãos.
- Incline a cabeça para trás.
- Puxe a pálpebra inferior para baixo com o dedo indicador, formando um “bolsinho”.
- Pingue uma gota no bolsinho — sem encostar o frasco no olho.
- Feche o olho suavemente por 1 a 2 minutos.
- Pressione o canto interno do olho (perto do nariz) com o dedo — isso fecha o ducto lacrimal e impede que o colírio escorra para o nariz e seja absorvido pela corrente sanguínea. Reduz efeitos colaterais sistêmicos.
Se usar mais de um colírio, espere pelo menos 5 minutos entre eles para que cada um seja absorvido corretamente.
E se eu esquecer de pingar?
Pingar colírio todo dia é a parte mais difícil do tratamento do glaucoma. A doença não dói, não incomoda — então é fácil esquecer. Mas cada dia sem colírio é um dia em que a pressão pode estar alta, causando dano ao nervo. Dicas práticas:
- Associe o colírio a um hábito fixo — por exemplo, pingar sempre depois de escovar os dentes à noite.
- Use alarme no celular.
- Deixe o frasco em lugar visível (mas protegido de calor e luz).
- Se esqueceu uma dose, pingue assim que lembrar. Se já estiver quase na hora da próxima, pule a esquecida — nunca pingue duas doses de uma vez.
Perguntas frequentes
Colírio para glaucoma é para sempre?
Na maioria dos casos, sim. O colírio controla a pressão, mas não elimina a doença. Se parar de usar, a pressão tende a subir de novo. É como remédio de pressão arterial: controla enquanto toma.
O colírio pode causar alergia?
Sim. Vermelhidão, coceira, inchaço das pálpebras e irritação persistente podem ser sinais de alergia — geralmente ao conservante (cloreto de benzalcônio). Se isso acontecer, avise seu médico: existem colírios sem conservante ou de outras classes.
Posso usar colírio lubrificante junto com o de glaucoma?
Sim. Muitos pacientes com glaucoma também têm olho seco. Basta respeitar o intervalo de 5 minutos entre os colírios. Prefira lubrificantes sem conservante para não sobrecarregar a superfície do olho.
O convênio cobre os colírios?
Depende do plano. A consulta e os exames são cobertos. Quanto aos colírios, alguns planos oferecem reembolso parcial ou têm convênio com farmácias. Pergunte ao seu plano de saúde. Para quem atende pelo SUS, os colírios básicos são fornecidos gratuitamente nas farmácias de alto custo.
Conteúdo revisado pelo Dr. Vitor Torturella — Oftalmologista, CRM-RJ 901849. Especialista em glaucoma, córnea e cirurgia de catarata. Membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). Última atualização: fevereiro de 2026.
Referências: Kanski, Clinical Ophthalmology, 9ª ed.; Yanoff & Duker, Ophthalmology, 5ª ed.; European Glaucoma Society Guidelines, 5ª ed.; Sociedade Brasileira de Glaucoma; Conselho Federal de Medicina.
Este conteúdo é de caráter informativo e educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Consulte sempre um oftalmologista para orientações específicas ao seu caso.
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Escrito pelo Dr. Vitor Torturella (CRM-RJ 901849).




