O glaucoma é uma doença dos olhos que vai destruindo o nervo óptico aos poucos — quase sempre sem dor e sem sintomas no começo. Se não for descoberto e tratado a tempo, leva à perda irreversível da visão. A boa notícia: quando detectado cedo, o glaucoma pode ser controlado com colírios, laser ou cirurgia, preservando a visão que você tem. A má notícia: como não dá sinais no início, a única forma de descobrir é fazendo exame oftalmológico de rotina. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo — e metade das pessoas que têm não sabem.
Dr. Vitor Torturella — Especialista em Glaucoma | CRM-RJ 901849 | RQE 31033
O que é glaucoma?
Para entender, pense no olho como uma pia com a torneira aberta. O olho produz um líquido transparente chamado humor aquoso, que circula dentro do olho e sai por um “ralo” (a malha trabecular). Quando esse ralo entope ou fica mais lento, o líquido se acumula e a pressão dentro do olho sobe. Essa pressão alta vai comprimindo o nervo óptico — o “cabo” que leva as imagens do olho para o cérebro — e matando suas fibras uma por uma.
O nervo óptico não se regenera. As fibras que morrem não voltam. Por isso a perda de visão do glaucoma é irreversível. Mas se a gente trava o processo cedo, mantém a visão que ainda tem.
Tipos de glaucoma
Existem vários tipos. Os mais comuns:
- Glaucoma de ângulo aberto — o mais frequente (cerca de 80% dos casos). O “ralo” vai entupindo devagar ao longo dos anos. A pressão sobe aos poucos, sem dor, sem sintoma. A pessoa só percebe quando já perdeu visão. É por isso que exame de rotina é tão importante.
- Glaucoma de ângulo fechado — menos comum, mas pode ser uma emergência. O “ralo” é bloqueado de repente pela íris. A pressão sobe rápido, causando dor intensa no olho, vermelhidão, visão embaçada, halos ao redor de luzes e náusea. Precisa de atendimento urgente.
- Glaucoma de pressão normal — a pressão do olho está dentro da faixa “normal”, mas mesmo assim o nervo óptico sofre dano. Acredita-se que o nervo seja mais frágil ou que o fluxo sanguíneo local esteja comprometido. Reforça que medir a pressão não basta — tem que examinar o nervo.
- Glaucoma congênito — nasce com o bebê. Raro, mas grave. Sinais: olho grande, lacrimejamento constante, sensibilidade à luz.
Quem tem mais risco?
Qualquer pessoa pode ter glaucoma, mas alguns fatores aumentam o risco:
- Idade acima de 40 anos — o risco aumenta a cada década.
- Histórico familiar — se pai, mãe ou irmão tem glaucoma, seu risco é 4 a 9 vezes maior.
- Afrodescendentes — prevalência até 3 vezes maior que em brancos e início mais precoce.
- Miopia alta — o nervo óptico do míope tende a ser mais vulnerável.
- Pressão intraocular elevada — nem toda pressão alta vira glaucoma, mas é o principal fator de risco modificável.
- Uso prolongado de corticoides — colírios, pomadas ou comprimidos com corticoide podem aumentar a pressão do olho.
- Diabetes e hipertensão — afetam a circulação sanguínea do nervo óptico.
Se você se encaixa em algum desses grupos, o exame oftalmológico anual é ainda mais importante.
Sintomas: por que o glaucoma é “silencioso”?
No tipo mais comum (ângulo aberto), o glaucoma começa destruindo a visão periférica — aquela visão “pelo canto do olho”. O centro continua nítido por muito tempo. Como o cérebro compensa a perda de um olho com a imagem do outro, a pessoa não percebe. Quando finalmente nota que algo está errado, já perdeu uma parte significativa das fibras do nervo óptico.
É por isso que os oftalmologistas insistem tanto em exame de rotina. Não espere ter sintomas para ir ao médico. Leia mais sobre os sinais sutis em 5 sinais silenciosos do glaucoma.
Como é o diagnóstico?
O exame para glaucoma é simples, indolor e rápido. Inclui:
- Tonometria — mede a pressão dentro do olho. Pode ser feita com jato de ar ou com o tonômetro de Goldmann (contato leve, com colírio anestésico).
- Fundoscopia / Retinografia — o médico olha o nervo óptico diretamente para ver se há dano.
- OCT (Tomografia de Coerência Óptica) — um exame de imagem que mede a espessura das fibras nervosas ao redor do nervo óptico. Detecta perdas microscópicas antes que causem sintomas visíveis.
- Campimetria (campo visual) — um exame funcional que mapeia toda a sua visão periférica, identificando áreas que já perderam sensibilidade.
- Gonioscopia — avalia o ângulo de drenagem do olho para classificar o tipo de glaucoma.
- Paquimetria — mede a espessura da córnea, que influencia a leitura da pressão intraocular.
Nenhum exame isolado diagnostica o glaucoma. O diagnóstico é feito pela combinação de todos os achados, interpretados pelo oftalmologista.
Tratamento do glaucoma
O objetivo do tratamento é baixar a pressão do olho para proteger o nervo óptico. As opções vão do mais simples ao mais complexo:
Colírios
Primeira linha de tratamento na maioria dos casos. Existem várias classes de colírios — cada uma age de um jeito diferente para reduzir a pressão (diminuindo a produção de líquido ou facilitando a drenagem). A maioria precisa ser usada todo dia, para sempre. Leia mais sobre tipos e efeitos em colírios para glaucoma.
Laser (SLT, iridotomia, ciclofotocoagulação)
Procedimentos feitos no consultório, com colírio anestésico. O SLT (Trabeculoplastia Seletiva a Laser) melhora a drenagem do líquido sem destruir tecido — pode ser repetido se necessário. A iridotomia a laser é usada para prevenir ou tratar o glaucoma de ângulo fechado, criando um furo microscópico na íris para abrir caminho para o líquido.
Cirurgia
Quando colírios e laser não são suficientes, a cirurgia cria um novo caminho para o líquido sair do olho. As técnicas mais usadas incluem a trabeculectomia e os implantes de drenagem. Saiba mais em cirurgia de glaucoma.
Glaucoma tem cura?
Não. O glaucoma não tem cura — mas tem controle. O tratamento reduz a pressão e trava (ou desacelera muito) a progressão da doença. A visão já perdida não volta, mas a que você tem pode ser preservada pelo resto da vida. Por isso quanto mais cedo o diagnóstico, mais visão se salva.
Perguntas frequentes sobre glaucoma
Glaucoma causa cegueira?
Pode, se não for tratado. Mas a grande maioria dos pacientes diagnosticados a tempo e que seguem o tratamento corretamente nunca fica cega. O segredo é descobrir cedo e tratar para sempre.
Se a pressão do meu olho está normal, posso ter glaucoma?
Sim. Existe o glaucoma de pressão normal. Por isso o exame não pode se limitar a medir pressão — precisa incluir avaliação do nervo óptico (fundoscopia, OCT) e campo visual.
Preciso pingar colírio para o resto da vida?
Na maioria dos casos, sim. O colírio controla a pressão, mas não elimina a doença. Se parar de pingar, a pressão volta a subir e o dano ao nervo continua. É como remédio de pressão arterial: você controla, não cura.
Crianças podem ter glaucoma?
Sim, o glaucoma congênito existe desde o nascimento. Sinais: olho aparentemente grande, lacrimejamento constante e sensibilidade excessiva à luz. Se perceber esses sinais no bebê, procure um oftalmologista pediátrico com urgência.
O convênio cobre o tratamento do glaucoma?
Sim. Consultas, exames (OCT, campimetria, tonometria) e procedimentos cirúrgicos para glaucoma estão no rol obrigatório da ANS. Convênios como Unimed, SulAmérica, Amil, Bradesco e Porto Seguro cobrem o tratamento. Colírios podem ter cobertura parcial dependendo do plano.
Com que frequência devo fazer exame?
A Sociedade Brasileira de Oftalmologia recomenda exame oftalmológico completo anualmente a partir dos 40 anos. Se você tem fatores de risco (histórico familiar, miopia alta, diabetes), o acompanhamento pode precisar ser mais frequente — seu oftalmologista vai orientar.
Conteúdo revisado pelo Dr. Vitor Torturella — Oftalmologista, CRM-RJ 901849. Especialista em glaucoma, córnea e cirurgia de catarata. Membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO). Última atualização: fevereiro de 2026.
Referências: Kanski, Clinical Ophthalmology, 9ª ed.; Yanoff & Duker, Ophthalmology, 5ª ed.; Organização Mundial da Saúde — dados globais de glaucoma; Sociedade Brasileira de Glaucoma; Conselho Federal de Medicina.
Este conteúdo é de caráter informativo e educativo. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico individualizado. Consulte sempre um oftalmologista para orientações específicas ao seu caso.
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Escrito pelo Dr. Vitor Torturella (CRM-RJ 901849).




