Catarata e Glaucoma Juntos: É Possível Tratar ao Mesmo Tempo?

Fundoscopia para diagnóstico de glaucoma — Dr. Vitor Torturella oftalmologista, São João de Meriti RJ


É muito comum que pacientes apresentem catarata e glaucoma simultaneamente. Ambas as condições estão associadas ao envelhecimento e frequentemente coexistem. A boa notícia é que, em muitos casos, é possível tratar as duas condições no mesmo procedimento cirúrgico.

Por Que Catarata e Glaucoma Aparecem Juntos?

Ambas as condições compartilham fatores de risco comuns:

  • Idade: O risco de ambas aumenta significativamente após os 60 anos
  • Diabetes: Fator de risco tanto para catarata precoce quanto para certos tipos de glaucoma
  • Uso de corticoides: Pode causar catarata subcapsular posterior E elevar a pressão intraocular
  • Predisposição genética: Histórico familiar influencia ambas as condições

Estima-se que até 30% dos pacientes com glaucoma também desenvolvam catarata ao longo da vida.

Cirurgia Combinada: Como Funciona

A cirurgia combinada de catarata e glaucoma é uma abordagem que trata ambas as condições em um único tempo cirúrgico. As opções incluem:

Facoemulsificação + MIGS

A opção mais moderna e menos invasiva. Durante a cirurgia de catarata (facoemulsificação), um microimplante de drenagem é inserido para melhorar o fluxo do humor aquoso e reduzir a pressão intraocular.

  • iStent: O menor implante médico aprovado pela FDA. Inserido no canal de Schlemm.
  • Hydrus Microstent: Um dispositivo flexível que amplia o canal de drenagem natural.
  • Kahook Dual Blade: Remove uma faixa da malha trabecular para melhorar a drenagem.

Vantagem: uma só anestesia, uma só recuperação, e potencial de reduzir ou eliminar colírios para glaucoma.

Facoemulsificação + Trabeculectomia

Para casos de glaucoma mais avançado, a cirurgia de catarata pode ser combinada com uma trabeculectomia (criação de nova via de drenagem). É mais eficaz na redução pressórica, mas tem recuperação mais longa.

Benefícios da Abordagem Combinada

  • Um único procedimento: Evita duas cirurgias separadas, reduzindo custos e tempo de recuperação
  • Redução de colírios: Muitos pacientes conseguem reduzir ou parar colírios de glaucoma após o procedimento
  • Melhora visual + pressórica: Trata a visão turva da catarata e o risco de progressão do glaucoma simultaneamente
  • A própria cirurgia de catarata pode reduzir a PIO: A remoção do cristalino espessado melhora a dinâmica do humor aquoso em 1-3 mmHg

Quando Não é Possível Combinar?

Nem todos os casos permitem cirurgia combinada. A decisão depende de:

  • Estágio do glaucoma (avançado pode requerer cirurgia filtrante isolada)
  • Tipo de glaucoma (ângulo fechado vs. aberto)
  • Número de medicações em uso
  • Saúde geral do olho e expectativas do paciente

O Que São MIGS? Entenda as Opções

MIGS é a sigla em inglês para Micro-Invasive Glaucoma Surgery — cirurgias minimamente invasivas de glaucoma. São procedimentos mais delicados e menos agressivos que a trabeculectomia tradicional, realizados por microincisões dentro do próprio olho. Na grande maioria dos casos, as MIGS são feitas durante a cirurgia de catarata, aproveitando a mesma incisão e a mesma anestesia — o que torna a cirurgia combinada especialmente eficiente.

As principais opções de MIGS atualmente disponíveis são:

iStent (e iStent inject W)

O iStent é o menor dispositivo médico implantável do mundo — menor que um grão de arroz. Ele é inserido no canal de Schlemm, que é o “ralo natural” do olho por onde o humor aquoso (o líquido que mantém a pressão ocular) deveria escoar. Em pacientes com glaucoma, esse ralo funciona com resistência aumentada. O iStent mantém o canal aberto, facilitando a drenagem e reduzindo a pressão intraocular (PIO).

A versão mais recente, o iStent inject W, consiste em dois micro-implantes colocados em pontos diferentes do canal de Schlemm, aumentando a área de drenagem. Estudos mostram redução média de 20 a 30% na pressão ocular quando combinado com facoemulsificação (Samuelson et al., Ophthalmology, 2019).

Hydrus Microstent

O Hydrus é um microstent flexível de nitinol (liga de níquel-titânio) que se encaixa dentro do canal de Schlemm em um arco de aproximadamente 8 mm — muito maior que o iStent. Ao expandir uma porção significativa do canal, o Hydrus melhora o fluxo aquoso em múltiplos pontos de drenagem simultaneamente.

O estudo HORIZON (Ahmed et al., Ophthalmology, 2022) demonstrou que, após 5 anos, pacientes que receberam Hydrus combinado com facoemulsificação tiveram pressão ocular significativamente menor e usaram menos colírios do que aqueles submetidos apenas à cirurgia de catarata.

Kahook Dual Blade (goniotomia)

O Kahook Dual Blade não é um implante — é um instrumento descartável que permite ao cirurgião remover uma faixa do tecido trabecular (a “malha filtrante” que bloqueia a drenagem) por dentro do olho. Esse procedimento, chamado de goniotomia, desobstrui o canal de Schlemm sem deixar nenhum dispositivo permanente no olho.

É uma opção atraente para pacientes que preferem não ter implantes intraoculares. A recuperação é rápida e os resultados são comparáveis aos dos microimplantes em glaucomas leves a moderados.

XEN Gel Stent

O XEN Gel Stent é um tubo flexível de gelatina que cria uma via de drenagem subconjuntival — ou seja, desvia o líquido para debaixo da conjuntiva, de forma semelhante à trabeculectomia, mas por uma incisão muito menor. É indicado para glaucomas moderados em que os dispositivos trabeculares (iStent, Hydrus) podem não ser suficientes.

O XEN fica na fronteira entre as MIGS e as cirurgias filtrantes tradicionais. A recuperação é um pouco mais longa que a dos dispositivos trabeculares, mas significativamente mais curta que a de uma trabeculectomia convencional.

Importante: MIGS e a cirurgia de catarata

Na prática clínica, a maioria das MIGS é realizada exclusivamente em conjunto com a cirurgia de catarata. Isso acontece porque a abertura já feita para a facoemulsificação dá acesso ao ângulo de drenagem do olho, facilitando o posicionamento dos dispositivos. Realizar MIGS como procedimento isolado é possível em alguns casos, mas é muito menos comum e nem sempre coberto pelos planos de saúde.

Essa é justamente a grande oportunidade para pacientes que têm catarata e glaucoma juntos: resolver dois problemas em uma única cirurgia, com recuperação integrada.

Recuperação da Cirurgia Combinada: O Que Esperar

Uma das dúvidas mais comuns dos pacientes é sobre a recuperação. A boa notícia: a recuperação da cirurgia combinada (catarata + MIGS) é muito semelhante à da cirurgia de catarata isolada. A principal diferença está no número de colírios e na frequência de retornos para medir a pressão ocular.

Veja o que esperar em cada fase:

Dia 1 — Pós-operatório imediato

  • Visão embaçada — normal. O olho ainda está inflamado e dilatado pela cirurgia.
  • Desconforto leve — sensação de “areia no olho”, lacrimejamento e sensibilidade à luz. Dor intensa não é esperada.
  • Início dos colírios — antibiótico, anti-inflamatório e, em alguns casos, colírio para pressão ocular. Na cirurgia combinada, o número de colírios pode ser ligeiramente maior do que na catarata isolada.
  • Uso de tampão ocular ou óculos de proteção nas primeiras horas.

Semana 1 — Melhora progressiva

  • A visão começa a clarear a cada dia. Muitos pacientes já notam melhora significativa entre o 2o e o 5o dia.
  • Primeira consulta de retorno — geralmente no dia seguinte ou dentro de 2 a 3 dias. O médico verifica a pressão intraocular, a posição do implante MIGS (se aplicável) e sinais de inflamação.
  • Evitar esforço físico, abaixar a cabeça, pegar peso e molhar o olho diretamente.

Mês 1 — Maior parte da recuperação completa

  • A refração (grau) começa a estabilizar. Em muitos casos, já é possível perceber o resultado visual final.
  • Os colírios anti-inflamatórios vão sendo reduzidos gradualmente conforme a inflamação diminui.
  • A pressão ocular é medida em cada retorno para avaliar a eficácia do procedimento para glaucoma.
  • A maioria dos pacientes retoma todas as atividades normais, incluindo exercícios leves e direção.

Mês 3 — Resultado consolidado

  • Resultado visual final — a refração está estável, e a prescrição de óculos (se necessário) pode ser feita.
  • Pressão ocular de referência — nessa fase, o médico estabelece o novo baseline de pressão pós-cirúrgico. É com base nesse número que o acompanhamento do glaucoma continuará.
  • O médico avalia se é possível reduzir ou suspender colírios de glaucoma que o paciente usava antes da cirurgia.

Quando a cirurgia combinada envolve trabeculectomia (em vez de MIGS), a recuperação tende a ser mais longa — de 4 a 6 semanas — com retornos mais frequentes para avaliar a cicatrização da bolsa filtrante. Nesse caso, o acompanhamento é mais próximo ao da cirurgia de catarata convencional, porém com atenção redobrada à pressão.

Escolha da Lente na Cirurgia Combinada

Pacientes que precisam operar catarata e glaucoma juntos frequentemente perguntam: “Posso usar lente premium (multifocal, trifocal) mesmo tendo glaucoma?”

A resposta depende do estágio do glaucoma e da integridade do campo visual.

Glaucoma leve a moderado com campo visual preservado

Se o glaucoma está em estágio inicial ou moderado e o campo visual central está intacto, é possível considerar lentes premium — incluindo trifocais (como PanOptix) e de foco estendido (como Vivity). Nesses casos, o paciente pode se beneficiar da redução da dependência de óculos, assim como um paciente sem glaucoma.

A decisão deve ser individualizada. O médico avalia a campimetria (exame de campo visual), a tomografia do nervo óptico e o potencial de progressão da doença antes de indicar uma lente premium.

Glaucoma avançado com perda de campo visual

Quando há perda significativa de campo visual, a lente monofocal é a escolha mais segura. O motivo é técnico: lentes multifocais e trifocais dividem a luz em múltiplos focos, o que inevitavelmente reduz o contraste e pode causar halos e glare (brilho ao redor de luzes). Em um olho com nervo óptico já comprometido, essa pequena perda de qualidade óptica pode fazer diferença na percepção visual do paciente.

A lente monofocal concentra toda a luz em um único foco, oferecendo a melhor nitidez e contraste possíveis — exatamente o que um olho com glaucoma avançado precisa.

Lentes tóricas na cirurgia combinada

Independentemente do estágio do glaucoma, pacientes com astigmatismo corneano significativo podem se beneficiar de lentes tóricas — sejam monofocais tóricas (para glaucomas avançados) ou trifocais tóricas (para glaucomas leves). Corrigir o astigmatismo na mesma cirurgia melhora a qualidade visual sem comprometer o contraste. Para entender as opções de lente em detalhes, leia sobre lentes PanOptix e Vivity.

Perguntas frequentes sobre cirurgia de catarata e glaucoma combinada

A cirurgia combinada é mais arriscada do que operar só a catarata?

A cirurgia combinada (facoemulsificação + MIGS) tem um perfil de segurança muito próximo ao da cirurgia de catarata isolada. O procedimento é um pouco mais longo — geralmente 5 a 10 minutos a mais — mas não representa um aumento significativo de risco. O que muda é a complexidade do planejamento: o cirurgião precisa dominar tanto a técnica de facoemulsificação quanto a de implante do dispositivo MIGS. Nas mãos de um cirurgião experiente, as taxas de complicações são semelhantes às da catarata isolada.

Vou parar de usar colírio de glaucoma após a cirurgia combinada?

Muitos pacientes conseguem reduzir o número de colírios de glaucoma após a cirurgia combinada — e alguns conseguem suspender completamente. No entanto, isso depende da resposta individual de cada olho ao procedimento. Estudos mostram que, após 2 anos, cerca de 70 a 80% dos pacientes que receberam MIGS combinado com facoemulsificação usam menos colírios do que antes. O médico avalia a redução gradualmente, sempre monitorando a pressão ocular. Nunca suspenda colírios por conta própria.

E se o glaucoma piorar depois da cirurgia de catarata?

É raro, mas possível. Em alguns casos, a pressão pode subir semanas ou meses após a cirurgia, ou o glaucoma pode progredir apesar da pressão controlada. Por isso, o acompanhamento regular é essencial — mesmo com cirurgia bem-sucedida, o glaucoma exige monitoramento por toda a vida. Se a pressão subir novamente, existem opções adicionais: ajuste de colírios, laser (SLT) ou, em último caso, uma nova cirurgia de glaucoma mais invasiva.

Qual o custo da cirurgia combinada?

A cirurgia de catarata é coberta pelos convênios médicos — está no rol obrigatório da ANS. Já o dispositivo MIGS (iStent, Hydrus, XEN) representa um custo adicional que nem sempre é coberto pelo plano de saúde. Esse custo varia conforme o tipo de dispositivo e a negociação com o convênio. Em cirurgias particulares, o valor da MIGS é incorporado ao custo total da cirurgia. Converse com seu médico sobre as opções disponíveis e a cobertura do seu plano.

Posso operar os dois olhos ao mesmo tempo?

Na prática brasileira, a cirurgia é feita em um olho de cada vez. O intervalo entre os olhos varia de 1 a 4 semanas, dependendo da recuperação do primeiro olho e da avaliação médica. Essa abordagem é mais segura porque permite avaliar o resultado do primeiro olho (tanto a visão quanto a pressão ocular) antes de operar o segundo, e evita o risco — embora raro — de complicação bilateral simultânea.

A cirurgia combinada demora mais do que a cirurgia de catarata normal?

Sim, mas a diferença é pequena. Uma cirurgia de catarata isolada dura em média 15 a 20 minutos. A cirurgia combinada com MIGS adiciona cerca de 5 a 10 minutos ao procedimento. Quando combinada com trabeculectomia, o tempo total pode chegar a 40 a 60 minutos. Em todos os casos, a anestesia é local (colírio ou injeção ao redor do olho) e o paciente vai para casa no mesmo dia.

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Escrito pelo . 44 páginas, linguagem acessível, baseado em evidências científicas.


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Dr. Vitor Torturella — Oftalmologista Rio de Janeiro

Dr. Vitor Torturella

Oftalmologista · Cirurgião Plástico Ocular

CRM-RJ 901849 • RQE Nº 31033 • RQE Nº 78199

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