É muito comum que pacientes apresentem catarata e glaucoma simultaneamente. Ambas as condições estão associadas ao envelhecimento e frequentemente coexistem. A boa notícia é que, em muitos casos, é possível tratar as duas condições no mesmo procedimento cirúrgico.
Por Que Catarata e Glaucoma Aparecem Juntos?
Ambas as condições compartilham fatores de risco comuns:
- Idade: O risco de ambas aumenta significativamente após os 60 anos
- Diabetes: Fator de risco tanto para catarata precoce quanto para certos tipos de glaucoma
- Uso de corticoides: Pode causar catarata subcapsular posterior E elevar a pressão intraocular
- Predisposição genética: Histórico familiar influencia ambas as condições
Estima-se que até 30% dos pacientes com glaucoma também desenvolvam catarata ao longo da vida.
Cirurgia Combinada: Como Funciona
A cirurgia combinada de catarata e glaucoma é uma abordagem que trata ambas as condições em um único tempo cirúrgico. As opções incluem:
Facoemulsificação + MIGS
A opção mais moderna e menos invasiva. Durante a cirurgia de catarata (facoemulsificação), um microimplante de drenagem é inserido para melhorar o fluxo do humor aquoso e reduzir a pressão intraocular.
- iStent: O menor implante médico aprovado pela FDA. Inserido no canal de Schlemm.
- Hydrus Microstent: Um dispositivo flexível que amplia o canal de drenagem natural.
- Kahook Dual Blade: Remove uma faixa da malha trabecular para melhorar a drenagem.
Vantagem: uma só anestesia, uma só recuperação, e potencial de reduzir ou eliminar colírios para glaucoma.
Facoemulsificação + Trabeculectomia
Para casos de glaucoma mais avançado, a cirurgia de catarata pode ser combinada com uma trabeculectomia (criação de nova via de drenagem). É mais eficaz na redução pressórica, mas tem recuperação mais longa.
Benefícios da Abordagem Combinada
- Um único procedimento: Evita duas cirurgias separadas, reduzindo custos e tempo de recuperação
- Redução de colírios: Muitos pacientes conseguem reduzir ou parar colírios de glaucoma após o procedimento
- Melhora visual + pressórica: Trata a visão turva da catarata e o risco de progressão do glaucoma simultaneamente
- A própria cirurgia de catarata pode reduzir a PIO: A remoção do cristalino espessado melhora a dinâmica do humor aquoso em 1-3 mmHg
Quando Não é Possível Combinar?
Nem todos os casos permitem cirurgia combinada. A decisão depende de:
- Estágio do glaucoma (avançado pode requerer cirurgia filtrante isolada)
- Tipo de glaucoma (ângulo fechado vs. aberto)
- Número de medicações em uso
- Saúde geral do olho e expectativas do paciente
O Que São MIGS? Entenda as Opções
MIGS é a sigla em inglês para Micro-Invasive Glaucoma Surgery — cirurgias minimamente invasivas de glaucoma. São procedimentos mais delicados e menos agressivos que a trabeculectomia tradicional, realizados por microincisões dentro do próprio olho. Na grande maioria dos casos, as MIGS são feitas durante a cirurgia de catarata, aproveitando a mesma incisão e a mesma anestesia — o que torna a cirurgia combinada especialmente eficiente.
As principais opções de MIGS atualmente disponíveis são:
iStent (e iStent inject W)
O iStent é o menor dispositivo médico implantável do mundo — menor que um grão de arroz. Ele é inserido no canal de Schlemm, que é o “ralo natural” do olho por onde o humor aquoso (o líquido que mantém a pressão ocular) deveria escoar. Em pacientes com glaucoma, esse ralo funciona com resistência aumentada. O iStent mantém o canal aberto, facilitando a drenagem e reduzindo a pressão intraocular (PIO).
A versão mais recente, o iStent inject W, consiste em dois micro-implantes colocados em pontos diferentes do canal de Schlemm, aumentando a área de drenagem. Estudos mostram redução média de 20 a 30% na pressão ocular quando combinado com facoemulsificação (Samuelson et al., Ophthalmology, 2019).
Hydrus Microstent
O Hydrus é um microstent flexível de nitinol (liga de níquel-titânio) que se encaixa dentro do canal de Schlemm em um arco de aproximadamente 8 mm — muito maior que o iStent. Ao expandir uma porção significativa do canal, o Hydrus melhora o fluxo aquoso em múltiplos pontos de drenagem simultaneamente.
O estudo HORIZON (Ahmed et al., Ophthalmology, 2022) demonstrou que, após 5 anos, pacientes que receberam Hydrus combinado com facoemulsificação tiveram pressão ocular significativamente menor e usaram menos colírios do que aqueles submetidos apenas à cirurgia de catarata.
Kahook Dual Blade (goniotomia)
O Kahook Dual Blade não é um implante — é um instrumento descartável que permite ao cirurgião remover uma faixa do tecido trabecular (a “malha filtrante” que bloqueia a drenagem) por dentro do olho. Esse procedimento, chamado de goniotomia, desobstrui o canal de Schlemm sem deixar nenhum dispositivo permanente no olho.
É uma opção atraente para pacientes que preferem não ter implantes intraoculares. A recuperação é rápida e os resultados são comparáveis aos dos microimplantes em glaucomas leves a moderados.
XEN Gel Stent
O XEN Gel Stent é um tubo flexível de gelatina que cria uma via de drenagem subconjuntival — ou seja, desvia o líquido para debaixo da conjuntiva, de forma semelhante à trabeculectomia, mas por uma incisão muito menor. É indicado para glaucomas moderados em que os dispositivos trabeculares (iStent, Hydrus) podem não ser suficientes.
O XEN fica na fronteira entre as MIGS e as cirurgias filtrantes tradicionais. A recuperação é um pouco mais longa que a dos dispositivos trabeculares, mas significativamente mais curta que a de uma trabeculectomia convencional.
Importante: MIGS e a cirurgia de catarata
Na prática clínica, a maioria das MIGS é realizada exclusivamente em conjunto com a cirurgia de catarata. Isso acontece porque a abertura já feita para a facoemulsificação dá acesso ao ângulo de drenagem do olho, facilitando o posicionamento dos dispositivos. Realizar MIGS como procedimento isolado é possível em alguns casos, mas é muito menos comum e nem sempre coberto pelos planos de saúde.
Essa é justamente a grande oportunidade para pacientes que têm catarata e glaucoma juntos: resolver dois problemas em uma única cirurgia, com recuperação integrada.
Recuperação da Cirurgia Combinada: O Que Esperar
Uma das dúvidas mais comuns dos pacientes é sobre a recuperação. A boa notícia: a recuperação da cirurgia combinada (catarata + MIGS) é muito semelhante à da cirurgia de catarata isolada. A principal diferença está no número de colírios e na frequência de retornos para medir a pressão ocular.
Veja o que esperar em cada fase:
Dia 1 — Pós-operatório imediato
- Visão embaçada — normal. O olho ainda está inflamado e dilatado pela cirurgia.
- Desconforto leve — sensação de “areia no olho”, lacrimejamento e sensibilidade à luz. Dor intensa não é esperada.
- Início dos colírios — antibiótico, anti-inflamatório e, em alguns casos, colírio para pressão ocular. Na cirurgia combinada, o número de colírios pode ser ligeiramente maior do que na catarata isolada.
- Uso de tampão ocular ou óculos de proteção nas primeiras horas.
Semana 1 — Melhora progressiva
- A visão começa a clarear a cada dia. Muitos pacientes já notam melhora significativa entre o 2o e o 5o dia.
- Primeira consulta de retorno — geralmente no dia seguinte ou dentro de 2 a 3 dias. O médico verifica a pressão intraocular, a posição do implante MIGS (se aplicável) e sinais de inflamação.
- Evitar esforço físico, abaixar a cabeça, pegar peso e molhar o olho diretamente.
Mês 1 — Maior parte da recuperação completa
- A refração (grau) começa a estabilizar. Em muitos casos, já é possível perceber o resultado visual final.
- Os colírios anti-inflamatórios vão sendo reduzidos gradualmente conforme a inflamação diminui.
- A pressão ocular é medida em cada retorno para avaliar a eficácia do procedimento para glaucoma.
- A maioria dos pacientes retoma todas as atividades normais, incluindo exercícios leves e direção.
Mês 3 — Resultado consolidado
- Resultado visual final — a refração está estável, e a prescrição de óculos (se necessário) pode ser feita.
- Pressão ocular de referência — nessa fase, o médico estabelece o novo baseline de pressão pós-cirúrgico. É com base nesse número que o acompanhamento do glaucoma continuará.
- O médico avalia se é possível reduzir ou suspender colírios de glaucoma que o paciente usava antes da cirurgia.
Quando a cirurgia combinada envolve trabeculectomia (em vez de MIGS), a recuperação tende a ser mais longa — de 4 a 6 semanas — com retornos mais frequentes para avaliar a cicatrização da bolsa filtrante. Nesse caso, o acompanhamento é mais próximo ao da cirurgia de catarata convencional, porém com atenção redobrada à pressão.
Escolha da Lente na Cirurgia Combinada
Pacientes que precisam operar catarata e glaucoma juntos frequentemente perguntam: “Posso usar lente premium (multifocal, trifocal) mesmo tendo glaucoma?”
A resposta depende do estágio do glaucoma e da integridade do campo visual.
Glaucoma leve a moderado com campo visual preservado
Se o glaucoma está em estágio inicial ou moderado e o campo visual central está intacto, é possível considerar lentes premium — incluindo trifocais (como PanOptix) e de foco estendido (como Vivity). Nesses casos, o paciente pode se beneficiar da redução da dependência de óculos, assim como um paciente sem glaucoma.
A decisão deve ser individualizada. O médico avalia a campimetria (exame de campo visual), a tomografia do nervo óptico e o potencial de progressão da doença antes de indicar uma lente premium.
Glaucoma avançado com perda de campo visual
Quando há perda significativa de campo visual, a lente monofocal é a escolha mais segura. O motivo é técnico: lentes multifocais e trifocais dividem a luz em múltiplos focos, o que inevitavelmente reduz o contraste e pode causar halos e glare (brilho ao redor de luzes). Em um olho com nervo óptico já comprometido, essa pequena perda de qualidade óptica pode fazer diferença na percepção visual do paciente.
A lente monofocal concentra toda a luz em um único foco, oferecendo a melhor nitidez e contraste possíveis — exatamente o que um olho com glaucoma avançado precisa.
Lentes tóricas na cirurgia combinada
Independentemente do estágio do glaucoma, pacientes com astigmatismo corneano significativo podem se beneficiar de lentes tóricas — sejam monofocais tóricas (para glaucomas avançados) ou trifocais tóricas (para glaucomas leves). Corrigir o astigmatismo na mesma cirurgia melhora a qualidade visual sem comprometer o contraste. Para entender as opções de lente em detalhes, leia sobre lentes PanOptix e Vivity.
Perguntas frequentes sobre cirurgia de catarata e glaucoma combinada
A cirurgia combinada é mais arriscada do que operar só a catarata?
A cirurgia combinada (facoemulsificação + MIGS) tem um perfil de segurança muito próximo ao da cirurgia de catarata isolada. O procedimento é um pouco mais longo — geralmente 5 a 10 minutos a mais — mas não representa um aumento significativo de risco. O que muda é a complexidade do planejamento: o cirurgião precisa dominar tanto a técnica de facoemulsificação quanto a de implante do dispositivo MIGS. Nas mãos de um cirurgião experiente, as taxas de complicações são semelhantes às da catarata isolada.
Vou parar de usar colírio de glaucoma após a cirurgia combinada?
Muitos pacientes conseguem reduzir o número de colírios de glaucoma após a cirurgia combinada — e alguns conseguem suspender completamente. No entanto, isso depende da resposta individual de cada olho ao procedimento. Estudos mostram que, após 2 anos, cerca de 70 a 80% dos pacientes que receberam MIGS combinado com facoemulsificação usam menos colírios do que antes. O médico avalia a redução gradualmente, sempre monitorando a pressão ocular. Nunca suspenda colírios por conta própria.
E se o glaucoma piorar depois da cirurgia de catarata?
É raro, mas possível. Em alguns casos, a pressão pode subir semanas ou meses após a cirurgia, ou o glaucoma pode progredir apesar da pressão controlada. Por isso, o acompanhamento regular é essencial — mesmo com cirurgia bem-sucedida, o glaucoma exige monitoramento por toda a vida. Se a pressão subir novamente, existem opções adicionais: ajuste de colírios, laser (SLT) ou, em último caso, uma nova cirurgia de glaucoma mais invasiva.
Qual o custo da cirurgia combinada?
A cirurgia de catarata é coberta pelos convênios médicos — está no rol obrigatório da ANS. Já o dispositivo MIGS (iStent, Hydrus, XEN) representa um custo adicional que nem sempre é coberto pelo plano de saúde. Esse custo varia conforme o tipo de dispositivo e a negociação com o convênio. Em cirurgias particulares, o valor da MIGS é incorporado ao custo total da cirurgia. Converse com seu médico sobre as opções disponíveis e a cobertura do seu plano.
Posso operar os dois olhos ao mesmo tempo?
Na prática brasileira, a cirurgia é feita em um olho de cada vez. O intervalo entre os olhos varia de 1 a 4 semanas, dependendo da recuperação do primeiro olho e da avaliação médica. Essa abordagem é mais segura porque permite avaliar o resultado do primeiro olho (tanto a visão quanto a pressão ocular) antes de operar o segundo, e evita o risco — embora raro — de complicação bilateral simultânea.
A cirurgia combinada demora mais do que a cirurgia de catarata normal?
Sim, mas a diferença é pequena. Uma cirurgia de catarata isolada dura em média 15 a 20 minutos. A cirurgia combinada com MIGS adiciona cerca de 5 a 10 minutos ao procedimento. Quando combinada com trabeculectomia, o tempo total pode chegar a 40 a 60 minutos. Em todos os casos, a anestesia é local (colírio ou injeção ao redor do olho) e o paciente vai para casa no mesmo dia.
Guia Gratuito
Guia Completo: Cirurgia de Catarata — O Que Você Precisa Saber
Escrito pelo
Dr. Vitor Torturella, Oftalmologista | CRM-RJ 901849
. 44 páginas, linguagem acessível, baseado em evidências científicas.




